Sofrer preconceito não te dá passe livre para ser preconceituoso


Semana passada a internet foi em rage pelo lançamento da campanha da marca de lingerie plus size Lane Bryant. No anúncio, modelos plus size sensualizam com a câmera usando peças da nova coleção Cacique e usam a hashtag “ImNoAngel”. Postei um pouco do que eu pensava no facebook mas senti que precisava falar mais sobre o assunto porque ele não envolve só a campanha, ele envolve algo que passamos sempre que algo como isso acontece: o sentimento de justiça quando o preconceito é retribuido na mesma moeda.

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A hashtag da campanha foi claramente uma alfinetada à mainstream Victoria’s Secret que é conhecida por suas Angels magras e belas e que ano passado lançou a campanha com as meninas entitulada: “The Perfect Body” (“O Corpo Perfeito”). Este slogan causou tanta polêmica que depois de protestos e petições, a marca o mudou para “A Body For Every Body” (“Um Corpo para Todos”). Achei péssimo o slogan, de muito mal gosto e também protestei quando ele apareceu. Mas vou fazer um parênteses aqui: quem acompanha o Overlicious sabe que eu sou gorda e tenho os seios bem grandes (e não encontro sutiãs do meu tamanho aqui no Brasil); mesmo assim tem meu tamanho lá na Victoria’s Secret. Então não, não estão ignorando essa fatia do mercado, ela apenas não é o foco de publicidade da marca e tudo bem.

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Minha opinião sobre a VS de lado, queria falar sobre a abordagem da Lane Bryant. Entendi que a alfinetada é para a MARCA Victoria’s Secret, mas quem são as Angels? As modelos, certo? E o que não gostei foi do desmerecimento da mulher magra, como se ser uma Angel fosse uma coisa ruim e ser mais gorda do que uma fosse a tendência do momento. Isso me incomodou demais. Essa é uma estratégia que muitas marcas e pessoas do mundo plus size usam, que é falar que ser gorda é melhor que ser magra, que muita magra vai querer emagrecer para se parecer com x modelo, que homem prefere carne, etc. E as pessoas falam “ah, sei que isso é errado, mas já sofremos tanto preconceito. Qual o problema de dois minutinhos de empoderamento?”. 1. Todo problema, 2. ISSO-NÃO-É-EMPODERAMENTO!

A nossa luta é contra o padrão de beleza e a favor da igualdade, certo? Então por que achamos que tudo bem criar um novo padrão de beleza onde ser gorda é mais bonito que ser magra? Não estamos fazendo nenhum favor à nossa causa e colocar umas contra as outras é o oposto de empoderamento. Se vamos empoderar, que todas sejam empoderadas, inclusive as magrinhas que não têm dificuldades para encontrar lingerie, elas também são mulheres e também são oprimidas pelo padrão de beleza, mesmo que de uma forma diferente da nossa.

E que tal se as marcas parassem de achar que a gorda só pode ser empoderada através de sexualização? Como se tivessemos uma necessidade de auto afirmação porque é uma idéia absurda alguém querer transar com uma gorda. Vamos falar da mulher gorda como uma mulher? Alguém que trabalha, que estuda, que tem filhos ou não, que quis casar ou não, que é inteligente e interessante? Precisamos parar de colocar o corpo em pauta, parar de comparar, de competir (PRINCIPALMENTE pela atenção masculina) e reconhecer as mulheres pelo que elas são: mulheres. Sofrer preconceito não te dá passe livre para ser preconceituoso e mulheres reais não são aquelas com curvas, somos todas reais.

Débora Fomin

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