Sobre os ex-gordos e o padrão de beleza plus size


Overlicious-Desabafo Estou enrolando para escrever esse texto há alguns meses, parece que as idéias não conseguem se organizar. Mas hoje vi algo na internet que me fez sentar e escrever. É algo que vejo com bastante frequencia que é aquela história de ex-gord@s que viraram outras pessoas. O que eu mais vejo são dois tipos de ex-gordo: aquele que vira hater de gordo ou aquele que acha que por que emagreceu a vida vai pra frente .

Se eu tivesse intimidade o suficiente com os haters, eu juro que perguntaria o por que de fazer alguém passar por algo que você já passou. Daí a pessoa sempre xinga e se desculpa falando “ah, obesidade é doença, tem que se preocupar com a saúde”. Sim, obesidade é doença e sim, tem que se preocupar com a saúde. Mas que tal cada um cuidar da sua PRÓPRIA saúde? E outra, quem é gordo tem que se sentir mal porque é gordo e emagrecer porque é feio ser gordo?

Mas nada me entristece mais do que ver gente falando que “agora vai” porque emagreceu. Já postamos no nosso facebook, o relato de uma pessoa que emagreceu (muito) e registrou todo o processo através de fotos e textos onde percebe-se claramente que emagrecer não significa felicidade instantânea. Quero que fique claro que não tenho NADA contra pessoas que emagrecem, fazem cirurgia, dieta, etc. Perceba a diferença: você tem que ser feliz INDEPENDENTEMENTE de ser magra. Não é porque emagreceu que agora vai conseguir aquele emprego, aquele namorado, aquele carro, aquele relacionamento com a sua família, aquele… A menos que você se contente em ter coisas só porque é magra e não por mérito, personalidade, etc.

Espero que isso não soe como um discurso preconceituoso. Acho que ninguém tem nada a ver com as suas decisões porque quem tem que viver com elas é você. E isso é algo que acontece muito nesse “mundo plus size” onde vejo tanta página de facebook escrevendo coisas tipo “muita mulher vai querer engordar para ficar igual a tal modelo”. O ponto é o seguinte: ninguém tem que querer mudar o que é para se parecer com ninguém! E estar fora do padrão não te dá passe livre para ser escroto com quem é diferente de você. Quem é alvo de preconceito não pode ser preconceituoso, quem é abusado não pode abusar, entendeu? Além de nos aceitarmos, podemos também aceitar aos demais?

Sim, isso existe. O mundo plus size não é um mundo livre, não é um mundo onde ser diferente é legal, não é um mundo que abraça a diversidade. Ele diz isso, mas está longe de entregar. O Overlicious tem quase 4 anos, e nesse tempo eu já vi muuuita foto de modelo, blogueira, mulher plus size que é famosa, está na mídia, etc. E percebo sempre um padrão: tem que ser proporcional, alta, com cintura, quase nada de celulite e estrias nem pensar. Ah sim, também temos o photoshop que tira qualquer dobrinha que dizem ser bem vinda, mas se ela está em algum lugar onde não é normal ter dobrinha, ela some!

Sempre fui gordinha, desde criança. Quando comecei a escrever para o Overlicious e ver todas essas fotos de meninas lindas, comecei a pensar no quanto elas são lindas, mas eu não. Eu tenho cintura, mas meu peito é muito grande, tenho estrias, não sou perfeita! Achava muito lindo esse discurso de aceitação e fugir do padrão da beleza, mas nem eu mesma estava me aceitando porque estava querendo seguir um padrão de beleza que não tinha como alcançar! Não dá pra ser mais alta, vou fazer redução de seio? FODEU!

Daí me perguntaram um dia por que não posto fotos de meninas mais gordas, assim, obesas. E parei pra pensar: porque não tem! As meninas bem gordas, que sabem desse discurso, não se aceitam porque elas tem muitas dobras onde não devem existir dobras e mesmo tendo roupas no tamanho delas, sempre vai marcar! Então nada de foto para a internet, pelo menos não enquanto elas não se parecerem com a Gabi Gregg ou com a Flúvia Lacerda.

Então não se engane, esse mundo não é livre. A moda está longe de ser democrática e nós sempre seremos vítimas do padrão de beleza enquanto ficarmos nos comparando ao que é considerado certo. Esse é o único corpo que eu vou ter, e nunca vou ser magrinha, nunca vou ter coxas que não encostam uma na outra quando ando, nunca vou ter seios pequenos, minhas estrias estão aí. Me parece então, uma grande perda de tempo passar minha vida odiando algo que vai ser meu pra sempre. Então, se você quis emagrecer, que ótimo! A decisão foi sua, espero que você esteja feliz com ela! Mas por favor, não faça comentários preconceituosos sabendo o que é estar do outro lado deles e não saia por aí pregando que “agora vai” porque suas conquistas dependem de muito mais do que sua perda de peso.

Débora Fomin

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