Sou apenas humana


Eu comecei a assistir American Horror Story com as minhas migas do trabalho. Eu sou medrosa, então pedi pra elas me acompanharem, e agora todos os dias nos reunimos e assistimos a série almoçando. Estou na 3a temporada, a Coven, onde foi a estréia da Gabourey Sidibe.

A Gabourey é uma mulher gorda, bem gorda mesmo. Nada de modelo plus size que usa 44, ela é grande mesmo. E quando olhei pra ela na série pela primeira vez pensei “Meu Deus, os braços dessa mulher são mais grossos que as minhas coxas”. E foi muito automático, foram os primeiros dois segundos do meu pensamento sobre ela e isso me assustou um pouco. Para piorar tudo, comecei a procurar justificativas na minha cabeça que me dessem o direito de julgá-la, me peguei usando até aquele argumento “ser gorda assim já é demais, não pode ser saudável”.

Confesso que me senti uma hipócrita por ter pensado isso e fiquei questionando meus limites de preconceito, mas depois de conversar com duas amigas maravilhosas, me dei conta de que esse processo é normal. Isso é porque nós vivemos em uma sociedade que é machista, que tem padrões de beleza, onde o corpo da mulher é público e todos têm direito de ter uma opinião sobre ele. E como eu nasci e cresci nessa sociedade, é só natural que eu tenha essas crenças.

E é aí que entra o empoderamento que tanta gente fala. Eu entendo o empoderamento como uma iniciativa individual de questionar os padrões e os pensamentos automáticos e ir contra eles. O empoderamento faz a gente desconstruir preconceitos, nos incentiva a dar um passo pra trás antes de julgar. Ele não é nato, é adquirido. Ele está sempre em evolução. Isso quer dizer que continuo com preconceitos e o momento em que decidi me empoderar não foi o momento em que os abandonei, mas quando decidi colocá-los em xeque e abrir a minha cabeça à possibilidade de estar errada.

O grande problema do movimento de aceitação é que as mulheres se colocam como vítimas sem enxergar que elas mesmas estão sendo gordofóbicas e preconceituosas. Falta humildade e sororidade. Sobra apontar o dedo para as outras e falta olharmos para dentro de nós mesmas.

Então vou colocar isso em prática: eu não sou a médica da Gabourey, não sei como é a saúde dela e isso não é assunto meu. O corpo da Gabourey não é minha propriedade e eu não tenho voz quando ele é o assunto. Gabourey é uma atriz ma-ra-vi-lho-sa, ela é profissional e samba na cara dos haters. Eu não tenho direito de julgá-la.

O empoderamento é um exercício diário onde eu me corrijo toda vez que o meu primeiro pensamento for julgar, ele me permite questionar de onde meu julgamento vem e me faz perguntar o porquê do assunto em questão me incomodar. É uma prática de autoconhecimento e evolução pessoal. Eu não nasci sabendo, vou continuar cometendo meus erros de julgamento e tudo bem.

Sou apenas humana.

tumblr_n0cx90gnnq1si3tc1o2_r1_500Débora Fomin

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