(R)evolução


Quando comecei a escrever o Overlicious pouco se falava sobre ser gorda, amor próprio e empoderamento. Era um assunto muito delicado, não se podia “assumir” gorda, era um tabu. A mulher gorda devia ser uma “magra presa no corpo de gorda”, sempre buscando emagrecer para enfim conseguir o que tanto sonhava para a sua vida. Começamos a tocar nesse assunto de forma sutil e pisando em ovos. Falar a palavra “gorda”? Nem pensar! Muito agressivo. Ninguém vai admitir que é gorda, ninguém vai querer comprar em loja especializada, isso é admitir derrota.

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E do nada: um salto quântico. Começam a aparecer termos que ninguém sonhava em escutar: gordofobia, amor próprio, empoderamento, ativismo, body positive e muitos outros que descobrimos ao longo do caminho. Nos demos conta de que pessoas gordas fazem parte de uma grande parcela da população e precisavam ser contempladas. Passamos a lutar pelo nosso espaço na mídia com o grito “queremos representatividade!”. Já comprei muita briga, já fiz muitos inimigos, já recebi muito e-mail pedindo ajuda e por isso, gosto de pensar que faço parte dessa mudança.

Por causa de tudo isso, ando pensando nos últimos meses sobre o meu papel dentro do Overlicious. Pensei um tempo se a luta tinha acabado, se ainda cabia continuar porque aparentemente o problema havia sido resolvido, não? As gordas estão por toda a grande mídia, existem grupos organizados, estamos falando sobre a gente, estão falando sobre a gente! Li um texto ótimo da Bee falando sobre o senso de vitória que temos ao ver uma gorda representada na publicidade (ela inclusive), na televisão, nas redes, etc. e como isso causa a falsa impressão de missão cumprida. Vivemos em uma sociedade complexa e não existem itens isolados a serem resolvidos, uma mudança impacta alguma outra estabilidade ou cria um novo problema que ninguém antecipou.

Para ilustrar isso basta pensar no Sufrágio, o movimento pelo voto das mulheres no começo do século passado. Se o problema fosse somente que as mulheres não podiam votar, não se falaria em feminismo até os dias de hoje. Foi um evento na história que quebrou um teto, que mexeu numa ferida e descobriu várias outras coisas que eram consideradas “normais” que na verdade eram problemas grávíssimos que precisavam ser resolvidos com urgência.

Vejo que a mesma coisa acontece. Não, o problema não está resolvido. Ainda existem problemas reais de acessibilidade, bullying, o mercado da moda ainda é extremamente novo, etc. que mesmo com a gorda na capa da revista, não vão ser resolvidos. O preconceito velado continua, esse nunca morre, é só dar uma olhada em outras frentes de ativismo e pensar bem se o problema está de fato resolvido.

Com isso em mente, eu olhei para o passado e para o futuro, vi que amadureci muitos pensamentos e aboli termos e discursos que reproduzia aqui no Overlicious. Quem me acompanha por mais tempo percebe que eu molhei o pé na agressividade de me chamar de gorda, arrisquei dizer que não devemos aceitar migalhas de ninguém, tirei o protagonismo do homem e sua aceitação e me desconstruí, algo que continuo fazendo todos os dias.

Então hoje gostaria de apresentar a minha nova fase.

O nome Overlicious partiu de mim quando comecei o blog há mais de 6 anos. Veja bem, era uma garota de 21 anos que tinha acabado de sair de um contexto de vida mega religioso e opressor. Eu era uma estudante de moda gorda que gostava de escrever e muitos conceitos eram “normais” na minha cabeça. A aprovação masculina era um deles: eu achava que se eu fosse bonita para um homem, tudo ia ficar bem, eu seria aceita. Por isso a junção das palavras “overweight” (acima do peso) e “delicious” (deliciosa/gostosa). Mas eu sou muito grata à esse nome e tudo que eu construí com ele, por isso ele continua.

O slogan (“Overweight and Delicious”) foi abolido porque eu não acredito mais nele. Simples assim. Acreditei nele por muito tempo, mas tudo bem mudar de ideia! Faz parte. Primeiro porque eu não acredito mais na palavra “sobrepeso”, não concordo que “obesidade” seja uma doença porque sei que o corpo humano em toda sua complexidade não pode ter um “peso ideal para a sua altura” (mas isso vou deixar para falar em outro texto). E segundo, principalmente, eu não acredito que aprovação masculina, ser bela e ser gostosa são fatores que devem reger a nossa autoestima. Amor próprio é você se amar como uma pessoa inteira, por ser quem você é, do jeito que você é, por dentro e por fora.

O layout do site permanece também porque ele é relativamente novo e eu o amo muito muito (fora que deu um trabalho bizarro pra deixar ele do jeito que eu quero). E por último, a fonte e as cores: decidi seguir por um caminho mais adulto, sóbrio e minimalista. Não só para retratar esse marco de evolução, mas para representar que a mudança e revolução podem acontecer com simplicidade e leveza. Sempre deixando de nos cobrar e respeitando o nosso tempo.

Débora Fomin

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