Precisamos Falar Sobre Representatividade


A luta contra a gordofobia tem crescido muito aqui no Brasil e isso é muito bacana. Mas como sempre digo, ainda falta muito para que esse preconceito perca a força e por isso quero falar sobre representatividade, um conceito que acaba se perdendo no meio disso tudo pelo fato de ainda sermos uma “minoria”.

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Primeiro, vamos entender o que é representatividade. Com um simples Google, você já encontra a definição: “Representatividade significa representar com efetividade e qualidade o segmento ou o grupo o qual se faz representar.” Esse conceito pode ser um pouco subjetivo em meio a pessoas gordas porque somos sempre colocados dentro de uma caixa como se fossemos realmente todos iguais. Como se todo mundo que discute o assunto tenha a obrigação de representar todas as pessoas gordas. E não têm.

Explico: eu sou uma pessoa gorda. Mas não represento todas as mulheres gordas, eu represento as gordas que se identificam comigo. Eu não sei o que é usar um tamanho 60, eu não sei o que é ter mais do que 117cm de quadril, eu não sei o que é ser alta. Agora, eu represento sim a mulher que tem seios enormes que não cabem em sutiã nenhum de loja nenhuma, eu represento a mulher que tem 1,50m de altura e desistiu de usar calças, e eu represento alguém que tenha a minha classe social e cor de pele. Eu não sei qual é a luta de uma pessoa maior do que eu, ou mais pobre, ou mais rica, ou gay, ou trans, ou negra. Então eu não posso falar por elas.

Estou dizendo tudo isso porque vejo muitas pessoas insistindo em abraçar o mundo e dizendo que são gordas, que representam as mulheres gordas porque usam tamanho 46. Leio textos de mulheres que falam sobre preconceitos que toda mulher gorda sofre, sendo que ela nunca sofreu ou sofre muito de leve. E vou te falar que isso é um grande desrespeito à mulher que realmente sofre por aquilo. É a mesma coisa do que um homem querer lutar pelos direitos das mulheres porque acha que ele pode fazer um melhor trabalho do que ela (como é o caso da #meaculpa). Por mais que ele seja super bem intencionado, essa atitude apenas traduz que ele acha que a mulher é incapaz de lutar essa luta sozinha. É a mesma coisa quando uma moça tamanho 46 quer lutar a luta da mulher 60.

Não me entenda errado, você pode apoiar a luta contra a gordofobia, ficar ao lado de quem sofre esse preconceito, mas nunca pode lutar por essa pessoa. E o motivo é muito simples: sabemos nos defender sozinhas. Eu não preciso de uma mulher magra lutando a minha luta, assim como uma mulher negra não precisa de mim para lutar a dela. Pense da seguinte forma: se você usa tamanho 46 e fala que sofre o pior dos preconceitos, pense na mulher que usa 56 que está escutando isso sair da sua boca. Se é ruim para você, pense em como é para ela.

Um bom exemplo disso tudo é a Jout Jout. Essa semana li um textão de facebook falando sobre como a Jout Jout é gordofóbica porque ela não fala com mulheres gordas. O motivo pela moça que escreveu o texto ter ficado ofendida com a Jout Jout é muito simples: Jout Jout não a representa. E não precisa representá-la. “Ah, mas ela é rica, fala com pessoas ricas” “Ah, mas ela é magra só fala com pessoas magras”. Sim, porque ela só pode falar sobre a experiência de vida que ela tem. Jout Jout não tem conhecimento de caso sobre ser gorda, então não fala sobre isso. Se falasse, a mesma pessoa diria que Jout Jout está roubando protagonismo.

Ninguém é obrigado a ter conhecimento de todos os casos representar todos os seres vivos. Então se você está do lado do representante, pense no peso daquilo que você escreve. Tenha um pouco de empatia antes de justificar seu corpo e bater o pé no chão que você é gorda quando você não é. E se você está do lado do representado, procure pessoas com quem você se identifique e também tenha a consciência de que se essa pessoa que não te representa, talvez esteja ajudando outras pessoas.

Débora Fomin

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