Olá, eu existo.


Procuro me cercar de pessoas que me fazem bem, que têm o pensamento aberto e diversificado. Porém, não se pode cercar de um nicho tão seleto todos os dias da semana. Claro, temos nossas questões familiares, a pressão estética e as cobranças diárias. Mas não falo só das pessoas que são próximas de nós, falo da sociedade como um todo e seus representantes espelhados em pessoas do dia a dia.

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Um pouco de contexto: sábado saí de casa para dar uma volta em algumas lojas de rua com a minha namorada. Ela é magra. Entramos numa loja de um novo estilista que faz umas peças diferentes e fomos atendidas pelo mesmo e pela vendedora-modelo dele. Você provavelmente sabe o final dessa história pois ela acontece tanto e com tantas pessoas, mas só pelo objetivo da narrativa vou dizer que não fui atendida. Não fui reconhecida como uma pessoa de carne que estava fisicamente presente naquele lugar. Nenhuma novidade né? Vida que segue.

Eu sei que sou mais forte do que isso e eu sei que essa pessoa não representa nada para mim. Mas não é a pessoa, é a ideia. E o gosto amargo que fica na boca quando passa pela sua cabeça que você está saindo de um lugar se sentindo mal pelo erro do outro. Veja, eu sou uma mulher branca e sou uma gorda menor, a maioria das roupas daquela loja me serviam e o estilista (que também era gordo) decidiu que não gostaria de ver uma mulher como eu usando uma peça dele. Mesmo com a consciência dos meus privilégios dentro dessa minoria, o sentimento de raiva e nojo é tão grande que eu só conseguia pensar no quão doente e invertida está uma sociedade em que você tem que se retirar e se sentir mal pela norma que oprime e pelo preconceito sendo reproduzido.

Esse não é um assunto novo e esse não é um texto para levantar ódio e os gritos de  “que absurdo” que estamos acostumadas. Não é um apelo ao boicote, até porque acredito que o universo se encarrega de colocar o lixo pra fora. É uma reflexão sobre escolhas e a postura de quem vive isso. Seria muito lindo se o mundo fosse como as pessoas de quem eu procuro me cercar, como a minha timeline, os textos que leio, os filmes que vejo. Seria realmente maravilhoso. Mas não é.

Porque sim, dói pra caralho ser essa pessoa. Alguém que tem que se armar só pelo direito de existir nesse corpo, que vive uma experiência diferente das pessoas magras à sua volta e que nunca vai conseguir fazer aquela pessoa entender o que é sentir aquilo. Uma pessoa cujo dinheiro não tem o mesmo valor, nem as ideias, nem nada. É só um espaço sendo desperdiçado e que poderia ser ocupado por alguém que merece estar mais ali do que você só porque o corpo dela se encaixa no ideal.

Tenho certeza que você que está lendo isso sabe exatamente como é esse sentimento de ter que sempre ser “a pessoa com alguma questão”, e é foda ser alvo de pena. Porque o intuito não é esse, eu acabo sendo um experimento social ambulante e um lembrete de como as coisas são fodidas quando a gente sai de um ambiente seguro, quando na verdade só queremos ser. É tudo o que eu quero. Ser, existir. É inevitável pensar que vivemos uma ilusão, que estamos nos enganando lutando para existir nos nossos corpos e chegamos a nos perguntar se realmente estamos erradas. Mas a verdade é que tudo isso é sim uma ilusão. A construção social é uma ilusão, a ideia de que uma pessoa é melhor do que outra por causa de um padrão imposto por pessoas ao longo dos anos. No fim do dia somos todos animais feitos do mesmo material e se você parar para pensar, é bem ridículo colocar uma hierarquia em qualquer coisa, ainda mais por um fator externo.

Quem me conhece sabe muito bem que eu não consigo ser conivente com a cultura do sofrimento e solidão da mulher gorda. Prefiro encarar meus desafios com realidade, sim, mas com algum otimismo e faço isso por mim. Sempre que isso acontece, vem um choque de realidade, fico triste mas imediatamente procuro uma saída pra não ter esse sentimento guiando minha vida. Então o que eu vejo é que eu tenho uma escolha: ou eu fico em casa me culpando pelo preconceito das outras pessoas, me sentindo um desperdício, ou eu me armo e vou a luta pelo meu direito de ser e existir no meu corpo. Mesmo que seja algo tão simples como andar na rua, comprar uma blusa, entrar numa festa.

Prefiro pensar que quem perde é a pessoa que está ali para vender uma peça de roupa que perdeu a oportunidade de converter uma cliente, ou um fotógrafo que perdeu a oportunidade de ter o registro de uma gorda fabulosa dançando em alguma festa, ou da pessoa que tem que viver escrava de um ideal tão desnecessário. Eu escolho não chorar por querer ser e fazer o que eu quiser.
debora

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