O problema não é (só) a Pugliesi


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Essa semana está sendo bem complicada pra quem é gordo, viu? Eu tento manter o máximo de positividade aqui e deixo os textões para os outros blogs pois acho que eles também são importantes na nossa luta. Tem gente na linha de frente e acho isso incrível, mas em todos os textos publicados sobre o vídeo do Porta dos Fundos “Saúde” vi somente uma problematização: a contratação da Gabriela Pugliesi para falar sobre o assunto.

Já falei dela aqui no blog sobre uma de muitas asneiras que ela já disse sobre gordos, mas a grande questão depois da publicação desse vídeo foi exatamente essa: como pode uma pessoa que encoraja body shaming em snaps pode ser considerada uma autoridade em saúde? Desde quando it girl fitness é médica? É um argumento super válido e também questiono isso, acho que cada um deve falar sobre o que sabe e a escolha foi bem infeliz mesmo.

Mas o que me chamou a atenção foi o vídeo em si e os comentários das pessoas falando “nossa o Totoro está muito gordo, ele precisa se cuidar urgentemente”. O que me incomoda é isso, é acharem que a saúde do gordo é de utilidade pública, que todo mundo tem direito de opinar. E se você é gordo e tem uma família sabe exatamente do que estou falando. São aqueles comentários das suas tias sobre o seu peso e usando esse incrível argumento: a saúde. Vou te contar que pouquíssimas pessoas se importam com a sua saúde e sei disso porque posso contar nos dedos as pessoas na minha vida que querem realmente saber como está minha saúde e se estou indo no médico. E não só pra falar do meu peso, querem saber se estou indo ao ginecologista, se estou com a imunidade boa, etc.

Me incomoda isso ainda mais na nossa cultura pop. Além do caso desse vídeo infeliz, também temos programas como “Medida Certa” que pega todas as celebridades gordas e “põe eles na linha” numa série de acompanhamentos médicos, reeducação alimentar e rotina de exercícios. Seria uma boa ideia, se todos os participantes não tivessem voltado a engordar, não é mesmo? Ou seja, pra mim esse programa só serve pra escrachar gordo e fomentar a crença de que gordo = doente, gordo = preguiçoso, gordo = come mal.

Seres humanos são complexos, não dá pra botar tudo numa caixa e falar “você é assim, então você se classifica como x”. E gordos são seres humanos complexos também. Já perceberam que obesidade é a única “doença” que é diagnosticada com imediatismo e baseada na aparência? Uma pessoa magra pode perfeitamente ser diabética, mas ninguém olha pra ela e fala “você é diabética”, mas para o gordo falam diariamente sem saber se o gordo é diabético. O fato de eu existir no meu corpo significa que sou portadora das piores condições ligadas à obesidade, automaticamente sou sedentária e me alimento mal.

A nossa cultura pop é um reflexo da nossa sociedade, nada é inventado. Então não sai da cabeça do Porta dos Fundos que você pode opinar na saúde do outro. Isso está nas pessoas. E não só com relação ao gordo! Sempre me policio com as coisas que penso sobre celebridades, por exemplo, “nossa, a barriga de x atriz tá estranha nessa foto”, “nossa, ela bem que podia fazer um botox porque tem grana pra isso”, “nossa, x atriz podia consertar os dentes né?”. Quando que o corpo dos outros virou propriedade pública? Quantas vezes você também não faz isso? E não vou nem entrar no mérito do gênero, porque se Totoro fosse uma mulher os comentários seriam piores ainda.

A Gabriela Pugliesi foi só o estopim, a gota d’água. Para a nossa cultura pop mudar, precisamos mudar primeiro como indivíduos até chegar o dia que comentar sobre a saúde do gordo não cole mais, até que ridicularizar as pessoas pelo físico delas não cole mais, até que entre na nossa cabeça que a só porque a pessoa é pública o corpo dela não tem que ser. E sei que isso é possível! É só acompanhar as mudanças na publicidade falando de feminismo e diversidade de gênero, não cola mais uma marca de cosméticos excluir essa questão, não cola mais uma marca de carros vender só para homens, etc. Quer dizer que a marca de cosméticos agora é feminista? Não! Quer dizer que o público é e quer se identificar com a marca para comprar um produto.

Eu sei que é um cliché dizer isso, mas para haver mudança temos que ser essa mudança.

Débora Fomin

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