Não seja um ladrão de protagonismo


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Sempre que penso em escrever alguma coisa, eu paro, penso e organizo meus pensamentos com calma. Faço textos aos poucos, vou reparando rebarbas pensando em cada detalhe. Mas hoje eu não estou com calma, estou bem puta da vida para falar a verdade e não vai mais ter calma. Coisas horríveis vem acontecendo um dia após o outro, uma verdadeira avalanche de desgraças que vão do incidente do Rio de Janeiro ao massacre de Orlando. Temos a internet para agradecer pela informação, mas infelizmente essa informação também traz uma grande quantidade de pessoas que perdem a oportunidade de ficar caladas.

Essas pessoas vem em duas formas: as “nem todo…” e as “ah, mas eu também…”

Explico:

As pessoas “nem todo…” são aquelas que quando a pauta é machismo, falam “mas nem todo homem é estuprador, eu por exemplo jamais estupraria ninguém”. NOSSA! Parabéns, você é um exemplo de ser humano, toma aqui o seu biscoito e ande três casas. E as pessoas “ah, mas eu também…” são aquelas que puxam a sardinha para outro sofrimento (muitas vezes não relacionado) que pode ser seu ou de outra pessoa. Por exemplo, quando se fala em estupro são essas pessoas que dizem “ah, mas os homens também são estuprados”. Sim, sabemos. Mas você concorda que a estatística 1 a cada 6 mulheres serão estupradas em algum ponto da vida é muito mais gritante do que 1 em cada 33 homens serão estuprados em algum ponto da vida? E aconteceu com uma mulher, então por que você está falando sobre homem?

Isso acontece porque as coisas estão mudando e fala-se cada vez mais sobre direitos das mulheres, gordos, negros, LGBTs etc. E quem não é nenhuma dessas coisas não está acostumado a ficar de fora do destaque. Pela primeira vez a pessoa alta, magra e branca não está em pauta e isso incomoda. Eu sei disso porque eu sou uma pessoa branca de classe média alta, já me incomodei no passado e já falei muita merda pra roubar protagonismo. Custa um pouco para entender o que é lugar de fala e empatia, mas confie em mim, você pode chegar lá.

O primeiro passo é olhar para si e entender o que você é e o que você não é. Esses são parâmetros para você saber sobre o que você pode e o que você não pode falar. O seu Facebook é um espaço público que pode ser usado como massa de manobra para ajudar e destruir. Não tem essa de “o Facebook é meu e eu escrevo o que eu quiser”, se essa é a sua posição, recomendo que você compre um diário e escreva suas ideias ali, onde ninguém mais vai ler. À partir do momento em que você escreve algo publicamente em uma ferramenta com caixa de comentários, você tem o poder de influenciar a opinião de pessoas tanto positiva quanto negativamente.

“Ah mas eu não posso falar sobre racismo se eu sou branca?” Não. Não pode. Assim como se você é magra você não pode falar sobre gordofobia PELO AMOR DE DEUS.  Poxa, é tão simples! Se você não é, fica quietinho!

Estou em um processo de limpar minha timeline do Facebook, não sigo mais páginas “caça ódio” com aqueles posts que nos comentários existe um “que absurdo” em uníssono. Para mim isso nada acrescenta. Além disso, estou pesquisando a fundo páginas que falam principalmente sobre feminismo e gordofobia. Essa semana me deparei com uma bem famosa que está cheia de posts sobre gordofobia e descobri que a dona da página é magra. Os posts são contraditórios, a pessoa se sente no direito de falar que “gorda” não é palavrão (o que não é) sem nunca ter sido chamada de gorda, em seguida vejo publipost de alimentos para dieta. Sabe? Me dá vontade de chorar de ver isso.

Ouvir “gorda não é palavrão” de uma pessoa gorda me enche de alegria porque o problema não é essa palavra e sim a forma e tom em que ela é proferida, e dói sim. Precisa-se de desconstrução para parar de se ofender com isso e uma pessoa magra simplesmente não entende o que é passar por isso. Ela pode falar sobre pressão estética à vontade, sobre objetificação e super sexualização das mulheres, mas gordofobia não. Eu não preciso de uma mulher magra me falando que a gordofobia é ruim. Eu sei porque eu vivo isso! Assim como eu não preciso de homem me falando sobre machismo, uma pessoa negra não precisa de uma pessoa branca falando sobre racismo, e uma pessoa LGBT escutar de heterossexual cisgênero os males da homofobia e transfobia.

Se você viu um texto muito maneiro e acha que alguém precisa ler ele, mande para essa pessoa. Não compartilhe publicamente, porque a minoria que você está defendendo não precisa de você para engrossar o coro. Não dessa forma.

Você pode tranquilamente ser um apoiador da luta contra a gordofobia e um aliado do feminismo e outras lutas usando a sua voz de maioria para abrir a cabeça dos seus iguais. Como homem, seu papel é chamar a atenção dos seus amigos quando fazem piadinha machista. Como magra, seu papel é avisar suas amigas magras que não é maneiro falar “nossa to gorda” ou “vou comer uma gordice”. Como heterossexual cisgênero é alertar seus iguais que não é engraçado falar “traveco” e assim por diante.

Mas quando a questão é a luta em si, abaixe o megafone e desça do palanque. A luta não é sua e não é o seu lugar de fala.

Não seja um ladrão de protagonismo.

Débora Fomin

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