Eu Sou Uma Gorda Fracassada


Nessa onda de trocar a foto do perfil do facebook por causa do dia das crianças, sentei com a Mari para ver fotos antigas da nossa infância e adolescência. Eu sempre fui aquela criança rechonchuda, com perninhas de Michelin e bochechas deliciosas de apertar e segui sendo gordinha até pela minha adolescência. Digo gordinha porque era levemente mais gorda que minhas amigas mas nada que alertasse meus pais para um caso de obesidade infantil.

Nas últimas semanas eu tive bastante contato com pessoas que não via há anos e claro, as que não têm noção viram nisso uma ótima oportunidade para me alertar da quantidade discrepante de quilos que ganhei nesses anos. Como se eu não soubesse. E parei para pensar nas expectativas que tinham para a minha vida adulta. Ser magra estava no topo da lista. Ser casada é um quase empate na vaga para o topo. Nada mais importa. Eu sou gorda, sou um fracasso. Eu sou solteira, aff.

Depois que parei de ver minhas fotos antigas corri para meu instagram e tive quase um suspiro de alívio ao ver que hoje eu sou gorda mesmo. Mas eu nunca fui tão feliz, tão bem resolvida como sou hoje. Sim, eu era magra nos meus 15 anos, mas eu não sabia o potencial que eu tinha para ser bem sucedida na minha carreira, não sabia escolher amizades e vivia debaixo de uma opressão religiosa absurda. Fora que me achava horrorosa e só queria ser como todo mundo.

Não ter “magra” e “casada” no topo da minha lista de prioridades me abriu portas para ter outras ambições e cuidar de mim de dentro pra fora. Me fez ver que não preciso segurar minha vida para quando eu for magra e que eu posso ser uma adulta plena assim como qualquer outra mulher.

Acho realmente triste escutar coisas assim de pessoas que amo e estimo. Percebo que pessoas sentem que eu estou me enganando, que falo de amor próprio como uma desculpa para não emagrecer, que eu sou na verdade uma preguiçosa.

Só quem é gorda sabe o significado de olhares e silêncios, percebe a cara de espanto das amigas magras quando você ficou com o cara mais bonito da festa, ou quando as coisas vão bem pra você profissionalmente. Afinal, a regra é: “ela é gorda, ela não merece”. E às vezes dá vontade de desistir e entregar os pontos, emagrecer de forma doente só pra ouvir aquele “parabéns”. Ou arrumar um relacionamento abusivo só para calar a boca de quem me cobra um namorado, qualquer namorado.

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Mas sabe? Hoje eu luto para que mulheres gordas como eu também possam ter seu espaço nesse mundo e serem tratadas como as humanas que são. E isso não é algo que eu possa desistir. E que mesmo sendo super difícil nadar contra a corrente e não dançar conforme a música, eu não vou desistir. Tenho certeza que a Débora de 15 anos me olharia como uma mulher inspiradora.

E se isso é ser uma gorda fracassada, então é isso mesmo o que eu sou.

Débora fomin

Obs: Quero agradecer às minhas amigas Babu Carreira e Cida Neves que estão sempre ali me segurando quando eu quero jogar tudo pra cima e desistir. Amo vocês.

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