Ela É Padrão e Eu Não


Se encontrar não é uma tarefa nada fácil e não acho que alguém pode dizer que finalmente se encontrou porque somos seres complexos em constante evolução. Obviamente não é diferente comigo, mas o primeiro passo eu sei que dei. Por isso que o ano passado foi tão importante para mim, me abri para experiências novas: sair da minha zona de conforto, enfrentar meus preconceitos, botar o pé na água e colocar a minha felicidade como prioridade. Daí vieram as viagens, o trabalho novo, as amizades mais profundas, os contatos cortados e um novo relacionamento.

Imagino que muitos já devam ter percebido: sim, é uma mulher e sim, ela é padrão. O objetivo desse texto não é me explicar porque estou namorando uma mulher magra, quem tem que saber da minha motivação sou eu e mais ninguém, o objetivo aqui é falar sobre uma experiência que nunca pensei que fosse passar, ainda mais vindo de pessoas tão próximas de nós duas.

É natural que ao longo de nossa vida exista a tendência de socializar com pessoas com pensamentos parecidos com os nossos e com o contato com o ativismo e a moda plus size, fiz amizades incríveis e acabei esquecendo do mundo que eu vivo. Quando você se junta com pessoas parecidas com você, você perde um pouco da perspectiva do que é ser gorda em um mundo magro. Acaba que o principal preconceito que vivemos é aquele inevitável, como no ambiente de trabalho e na família.

Nosso relacionamento não foi bem recebido por muitas pessoas, tivemos desde reações diretas à comportamentos maldosos disfarçados de apoio. E engraçado que não foi porque somos duas mulheres, foi inteiramente porque ela é padrão e eu não. Eu não tive o benefício da dúvida, algumas pessoas não quiseram nem saber de me conhecer. Foi dar uma bela olhada para o meu corpo e logo dizer “não”. Amigos alertaram ela sobre mim, “toma cuidado com ela” já disseram. De repente ela era boa demais para mim por causa de um fator superficial e externo.

Do meu lado eu achei pior, amigos queridos impressionados, me perguntando como foi que eu consegui essa mulher linda. Como essa pessoa maravilhosa pode estar com uma pessoa como eu? Me via em rodas em festas onde o assunto principal era a beleza e estilo dela, como se o nosso relacionamento fosse só isso. Pouquíssimas pessoas chegaram a nos perguntar como nos conhecemos, como começou a nossa história, se somos felizes. Nada disso importa. O que importa é que ela é padrão e eu não.

Eu nunca fui uma adolescente com grandes problemas sobre o corpo, nunca fiz loucuras absurdas e sempre me achei, de um modo geral, bonita. De uns tempos para cá, com o contato com o feminismo, tento não dar tanta importância para ser bela, afinal isso é construído na nossa cabeça pela nossa sociedade, é subjetivo e não define ninguém. Claro que na teoria é ótimo pensar assim, mas isso significa nadar contra a correnteza. Cada comentário, cada briga, cada olhar maldoso acaba sendo um golpe e é fácil dizer “nossa, nem se importa com isso”, mas não funciona assim, eu sou um ser humano com sentimentos, imagine como é estar feliz com uma pessoa e o mundo te dizer que você não merece estar com ela porque ela é padrão e você não.

A frequência vai te cortando e você vai se dizendo que está tudo bem, que não importa, foda-se o que eles pensam. Até que chega um momento em que você começa a se analisar. Será que a minha visão sobre mim mesma é deturpada? Será que estou errada em me achar bonita? Será que de fato não mereço isso?

Obviamente a primeira reação foi me afastar dessas pessoas, mas se eu falasse a quantidade de pessoas que tivemos que tirar das nossas vidas você se assustaria. E é tenso porque são pessoas “queridas”, que faziam “bem” pra gente, que não esperávamos isso delas. Eu não acredito que exista conversa com preconceito, então eu prefiro ter dois, três amigos próximos do que ter um Facebook lotado de gente que caga pra mim e/ou torce para o meu fracasso. Não tenho paciência para dar aulinha pra macho e nem biscoito pra “feminista” magra, eu corto mesmo, sinto muito.

Como eu disse no texto anterior, a desconstrução não é um evento. Então não vou dar uma receita de como superar, como não sofrer com o preconceito, mas eu vou dizer o que eu tento praticar e tem funcionado para mim.

Em primeiro lugar, sentir pena de mim mesma não combina comigo. Eu tenho material para sentir pena, para pensar na minha desgraça, nas minhas lutas e solidões para chorar por semanas, mas eu escolho não fazer isso. Em segundo lugar, essa ofensa não é só para mim, é para ela também. É reduzi-la à aparência e, acredite em mim, ela tem MUITO MAIS a oferecer do que isso. A beleza dela é uma pincelada na obra de arte que é o nosso relacionamento. E por último, os golpes nos fortalecem, nos dão uma nova perspectiva e apresentam uma oportunidade de crescer e aprofundar o vínculo.

Infelizmente o mundo em que vivemos é um lugar tóxico e preconceituoso. Mas eu não sou doida de deixar ele decidir o meu destino ou ditar se eu tenho ou não direito de ser feliz.

Seguimos nadando contra a corrente. Cada vez mais fortes.

lovewins1

debora

 

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