Dispenso as Flores


Não estou feliz nesse Dia Internacional da Mulher. Não estou achando bonitinhas as frases, nem gostando dos descontos em eletrodomésticos, nem rindo das piadas. Não estou vendo nada de significativo para comemorar. Sim, houveram muitas conquistas e avanços ao longo dos anos, mas não é estranho que nos seja apenas concedido UM dia no ano para lembrar disso? Não parece uma grande hipocrisia agradecer pelas mulheres em um dia, e nos outros 364 invalidar a vida delas?

cida

Frase da Babu Carreira reproduzida por Cida Neves

Dito isso, gostaria de expor a minha insatisfação dentro do “ativismo” gordo e vou explicar o motivo de eu ter me ausentado dele.

Na verdade, eu nunca gostei de me chamar de militante ou ativista. Eu não gosto da cara do ativismo gordo vigente, ele não me representa. Eu vejo ele cada vez mais dividido e problemático, vejo muito discurso seguro e machista. Obviamente algumas pessoas estão com o olhar certeiro, falando as coisas como são, expondo os problemas, não pensando em dinheiro ou fama e essas pessoas atraíram bastante ódio. Eu fui uma dessas pessoas que odiou essa cara nova do movimento.

Eu não via necessidade em falar a palavra “gorda”, pra mim, estava tudo certo enquanto eu era validada por homens, pra mim, falar de moda bastava. Fazia parte de um ativismo delicado e seguro, usando palavras como “gordinha” e reclamando do preconceito diário que mulheres gordas sofrem. Até que descobri que a tal da desconstrução não é um evento, é um estilo de vida. Uma desconstrução não é o suficiente, vi que se não vivo isso diariamente, se não estou disposta a perder meu chão toda vez, se tenho medo de questionar tudo, eu não vou só ficar para trás, como vou nadar contra a corrente.

Esse ativismo não é o suficiente pra mim, não é suficiente só ter conteúdo de moda, não é ok ser fetichizada, só reclamar não muda o mundo, então eu decido não fazer parte dele. E assim como as outras pessoas que não estão satisfeitas com uma militância café com leite, cheguei a ser chamada de gorda opressora. Minhas amigas sendo chamadas de terroristas e acusadas de criarem uma gang de gordas (RISOS). Cara, eu quero é mais ser uma gorda opressora mesmo, quero fazer parte dessa gang de mulheres que estão cansadas de calar a boca e abaixar cabeça.

Isso quer dizer não fechar com “amiga” magra que fala coisa escrota, não aceitar migalhas em relacionamentos, levantar a cabeça e parar de chorar por estar fora do padrão, parar de reclamar dos absurdos e fazer algo a respeito. É também dizer a verdade, mesmo que ela não seja popular ou seja considerada muito radical. É fazer inimigos.

Então nesse dia, a única mensagem relevante é: a nossa luta continua. Eu luto para não ser negada um plano de saúde, eu luto para que a carta supertrunfo “saúde” deixe de existir, eu luto para que a gordofobia velada seja exposta, eu luto para que as mulheres gordas não sejam fetichizadas, eu luto para andar em segurança, eu luto para que o meu relacionamento não seja sexualizado, eu luto para que as mulheres gordas sejam humanizadas, eu luto para ser considerada NORMAL. E eu me recuso a fazer isso delicadamente.

debora

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