Ano novo, cabeça nova, mesmo corpo


Estava pensando em um post para esses primeiros dias de 2016 e decidi que, para expressar a minha gratidão por começar o ano sem nenhuma pendência, vou fazer as mesmas resoluções da Marie e começar com muita positividade. Embora sejam os mesmos itens, as descrições são pessoais.

Sempre achei resoluções de ano novo uma grande besteira. Primeiro porque se a gente parar para pensar, o que muda mesmo é um número no calendário. Nossa vida não vai magicamente mudar para melhor de um dia para o outro. E segundo porque as resoluções de ano novo são (na maior parte das vezes) alvos inatingíveis que na euforia da festa da virada achamos que vão acontecer porque sim.

Mas acho importante traçar alvos factíveis em qualquer momento da nossa vida e vejo mais benefícios em metas que partem de dentro para fora do que coisas materiais e passageiras (como o famoso “emagrecer para usar biquini no verão de 2017”). Então começando:

Evitar conversas sobre dietas

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Esse assunto é bem comum em qualquer roda de conversas entre mulheres e existem motivos sociais para isso que tem muito a ver com magreza = sucesso. Quando eu estou em uma roda de conversa e esse assunto surge me pego me sentindo mal por não estar fazendo nenhuma dieta. Afinal, minha amiga magra está fazendo para caber no vestido de noiva dela, por que eu, que sou gorda, não estou fazendo? Não é possível que não existam outros assuntos maneiros que eu possa compartilhar com as minha amigas, então prefiro me abster desse.

Não atribuir valores morais a palavras como “gorda” ou “magra”

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2015 foi um ano importante. Entendi finalmente que “gorda” não é palavrão e que tudo bem (mesmo) eu falar “eu sou gorda” e ainda repreender quem diz “para com isso, você é linda”. Uma coisa não cancela a outra: “gorda” é uma característica, assim como “magra”. Então é um bom exercício também parar de falar em posts do facebook das amigas “nossa amiga, tá linda, tá rica, TÁ MAGRA”. Afinal, além de não ser legal fazer comentários não solicitados sobre os corpos de outras pessoas, também não sabemos se a pessoa quer estar magra. Já cansei de ver casos de meninas falando que quando estavam em depressão receberam uma quantidade absurda de “elogios”. Então se não me perguntaram, não vou falar.

Pensar em “peso” e “fitness” como entidades diferentes

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Assim como meio mundo, voltei a me matricular em uma academia esse ano. As várias mudanças que aconteceram na minha vida no ano passado não me permitiram continuar segurando essa barra financeira e olha, eu vou falar da FALTA que isso me fez. Em nenhum momento fui à academia pensando em emagrecer, em ter barriga tanquinho, nada disso. E isso impressionava os instrutores que me olhavam com uma cara de “fala sério”, também incomodava olhares gordofóbicos de quem me via correndo numa esteira. Mas não fui à academia para agradar ninguém, era só eu e a minha música passando aquele tempo lá e saindo com endorfinas no talo, indo dormir bem e acordando maravilhosamente. Fui para me sentir bem, descansada, com mais pique e nada disso tinha a ver com o meu peso na balança. Saúde e um número na balança são duas coisas distintas, e não é porque eu vou à academia que eu odeio o meu corpo. É exatamente o contrário.

Arriscar em algo que sempre quis usar mas nunca tive coragem

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Aprendi ao longo dos anos que as regras existem para ser quebradas e fui de dar dicas de moda para o seu biotipo para “use o que você quiser”. Por exemplo, eu não posso usar saia midi porque pelas regras da moda eu sou muito baixa então teria que compensar com um salto. mas eu não gosto de salto e gosto de saia midi. Fui às compras, comprei a bendita e uso mesmo.

Tenho algumas peças em mente, mas um grande desafio vai ser me desapegar das roupas que não acinturam, porque acho lindo e quero (e vou) usar.

Deixar as frases de pseudo positividade corporal para trás

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Nesse ano de 2015 aprendi a problematizar frases postadas facebook afora que intencionalmente são sobre positividade corporal, mas no fim do dia só reproduzem machismo mesmo. Frases como “quem gosta de osso é cachorro, homem gosta de carne” ou “mulheres reais têm curvas” (não tenho que ser nada pra homem gostar de mim e mulheres são reais independente de curvas).

Ter consciência dos meus privilégios

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Isso é uma coisa que ainda estou aprendendo e espero evoluir muito mais em 2016. Não é só porque eu sou gorda como sou que estou ao mais extremo da margem da sociedade. Existem corpos gordos muito mais marginalizados do que o meu e a grande prova disso é que ainda encontro peças no meu tamanho em lojas de tamanhos convencionais.

Muitas mulheres sequer encontram seus tamanhos em lojas especializadas, então devo aprender que por mais que eu sofra algum preconceito, ainda existem pessoas que sofrem mais do que eu (por esse e também por outros aspectos como raça, posição social, orientação sexual etc). Privilégio gordo também existe e o meu papel é não invalidar o discurso e experiências de pessoas que não têm os mesmos privilégios que eu.

Ajudar na luta pela visibilidade de corpos mais marginalizados que o meu

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Para complementar o item anterior, vale ressaltar a palavra “AJUDAR”! Esse item não significa LUTAR as lutas de outras pessoas, mas simplesmente abrir espaço para a fala delas e dar a visibilidade e crédito que elas merecem. Não usar minhas experiências para igualar dois casos diferentes, mas ter empatia e entender que existem corpos mais marginalizados que o meu e ajudar na luta para que eles também tenham representatividade.

Aprecie a sua comida

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Olha lá a gorda falando pra gente encher a cara de comida. Não. É só para lembrar que eu posso ter uma relação saudável com a minha comida. Que não preciso me sentir culpada por comer alguma coisa gostosa e que não preciso usar a comida como algo além de energia e prazer.

Chame a atenção de discursos problemáticos

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Antes da virada, Fernanda Young publicou um texto que mais da metade da minha timeline compartilhou. Eu só consegui ver problemas nele! Era uma cagação de regra do início ao fim (e não só a parte em que ela fala sobre barriga positiva e que ninguém gosta de muita positividade). Era sobre a “política” de mandar nudes e sobre muitas outras coisas ditando como devemos viver nossas vidas.

O ataque ao corpo (principalmente da mulher) é algo que já está inserido na nossa cultura e na nossa forma de pensar, por isso é importante analisar se não estamos perpetuando algum tipo de preconceito de raça, idade, peso, etc.

Faça as pazes com a sua balança

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No texto original o item é “jogue fora sua balança”, mas acho que isso não é necessário uma vez que você entende que o resultado que aparece no visor é só um número e não quem você é, seu valor, sua beleza, sua capacidade e nem sua saúde. No período de 1 ano que fiz academia devo ter perdido uns 3kg e isso aconteceu por uma série de motivos: não estava tentando emagrecer, perdi gordura e ganhei músculo (que pesa mais do que gordura). Mas isso não interferiu na minha saúde. Um número na balança não me disse que estava doente ou saudável. É só um número.

Seja mais gentil com você mesma

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Essa é a mais importante de todas, me lembra desse texto que escrevi sobre usar biquini. Acho importante enfatizar esse ponto novamente: nunca fale de você o que você não falaria para as suas melhores amigas. Maneire nos xingamentos e comentários como “hoje estou horrorosa”, “meu cabelo está um lixo”, “estou uma gorda nojenta”. Você nunca diria isso para quem mais ama, então não diga sobre você.

Então bora fazer acontecer, porque coisas boas não acontecem sozinhas!

Feliz ano novo!

Débora Fomin

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